Saturday, May 28, 2005

Pessoa...

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Dissessem.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Por quê
Esperar?
-Tudo é
Sonhar.


Fernando Pessoa

Genial...

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser trise brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão-
Qualquer coisa assim
Como um perdão?


Fernando Pessoa

Saturday, May 21, 2005

Aparição

-Temos de ir vestir o nosso pai-disse o Tomás.
Senti um arrepio na ameaça do contacto com a carne morta. Mas reagi.Que mãos profanas para te tocarem, meu velho? Que outras mãos senão estas de piedade, de um coração despedaçado? Sofro. Vou até ao quarto onde o meu pai dorme.
...
Então bruscamente ataca-me todo o corpo, as vísceras, a garganta, o absurdo negro, o absurdo córneo, a estúpida inverosimilhança da morte. Como é possível? Onde a realidade profunda da tua pessoa, meu velho? Onde, não os teus olhos, mas o teu olhar?, não a tua boca, mas o espírito que a vivia?Onde, não os teus pés ou as tuas mãos mas aquilo que eras, tu e se exprimia aí? Vejo, vejo, céus, eu vejo aquilo que te habitava e eras tu e sei que isso não era nada, que era um puro arranjo de nervos, carne e ossos agora a apodrecerem. Mas o que me estrangula de pânico, me sufoca de vertigem , é teres sido vivo, é tu estares ainda todo uno para mim, na memória do teu riso, no tom da tua voz, que era lenta, sossegada, nas ideias que punhas a viver entre nós, na verdade fulgurante de seres uma pessoa. Recordo-te totalizado, olho-te. Que é que te habita, que é que está em ti e és tu? Não, não é a carne, não não é o corpo: é aquilo que lá mora, aquilo que ainda dura de ti nestas salas, neste ar, aquilo que eras tu, o teu modo único de ser, aquilo a que nós falávamos, atravessando a tua parte visível. E, no entanto, sei, sei que esse tu real que te habitava não era senão a sua morada; como o espaço de uma casa, a intimidade do home, são as paredes que o fazem: derrubada a casa, a intinidade que lá havia também morre...



Vergílio Ferreira em Aparição

Tuesday, May 10, 2005

A FLOR

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras são tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor. Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração, do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas.
Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!



Almada Negreiros, Obras Completas, INCM, I- Poesia

Sunday, May 08, 2005

A noite mais escura da alma

O Anjo esquecido





Alimentar-se do que o rodeava.

Uma personagem de si próprio.

No fundo, não muito diferente do que fora nos últimos anos. Um vulto sombrio, de uma beleza escura, de anjo das trevas, vivendo como um sonâmbulo, em lugares diferentes que não chegavam, a ser lugar algum...

Por vezes, tomava consciência do mundo, de si mesmo, no silêncio de uma capela, junto ao mar (o som das ondas causava-lhe dor, como algo esquecido há muito tempo), ao descobrir uma cosia que nunca vira antes (que fora só uma palavra), uma rosa, a chama de uma vela.

Um lobo solitário.

Uma história por contar.

Um antro de abismos e de sombras.

E momentos. Longe uns dos outros.

Deixou a mente esvaziar-se e ficou a música. Estranha, terrível, uma marca do fundo.

Sempre lhe provocara medo. Levantou-se e, cambaleando ligeiramente, aproximou-se da porta que dava para o jardim. Por segundos, afundou o rosto no veludo azul. Depois afastou os cortinados com um gesto brusco e abriu a porta.

Lá fora uma claridade suave, quase inesperada, depois da luz artificial do interior.

Respirou o ar fresco, os perfumes da terra, dá água, das plantas.

– Quero sair de mim próprio – disse baixinho.

Mas quando se afundou no jardim, compreendeu que estava no mesmo lugar.

Um trompe l’oeil.

Aos poucos, começou a ver como num espelho.





Ana Teresa Pereira