Thursday, September 29, 2005

Pensou...

Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra


António Ramos Rosa

AusÊncia

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade

Sunday, September 25, 2005

Reis...

Ao longe os montes têm neve ao sol,
Mas é suave já o frio calmo
Que alisa e agudece
Os dardos do sol alto.

Hoje, Neera, não nos escondamos,
Nada nos falta, porque nada somos.
Não esperamos nada
E temos frio ao sol.

Mas tal como é, gozemos o momento,
Solenes na alegria levemente,
E aguardando a morte
Como quem a conhece.



16-6-1914


Ricardo Reis

Wednesday, September 21, 2005

Concretização!

(...)Ângela não disse nada mas assim que abrimos a porta, ela clamou para a casa toda com uma força estranha de desespero
- Lucrécio!
Disse o seu nome inteiro como nunca fizera e quem ela chamava não era o nosso filho. Lucrécio!, disse ainda, chamando por quem não lhe pertencia e se pertencia a si. As janelas estavam abertas e o mar entrava pela casa dentro. Ângela ia chamando, por fim disse Luc em voz baixa, mas todos os quartos e sala estavam vazios. Olhámo-nos um ao outro no receio mútuo da palavra que um dissesse. Reparei então que a porta da casa de banho estava apenas entreaberta. Mas quando a desloquei. Pesada e alguma coisa pesada que se arrastava com ela. Ângela entrou logo e eu vi-lhe súbito as mãos no rosto, a boca aberta e muda. Enorme e muda e eu entrei e vi e não entendi. Meu querido Luc, porquê? porquê? Porquê? Estarrecido imóvel olho ainda, olho sempre. Depois, piedade e horror e amargura que se me misturavam em confusão- Ângela, disse. Mas ela não se moveu. Ergui então eu só o corpo do filho, era preciso deslocar-lhe o cordão do pescoço. Suspenso do fecho da porta o cordão do pijama, o corpo tombado de rastos. Um vergão roxo, a língua, os dentes visíveis. O pescoço quebrado, a boca aberta. O corpo de rojo, humilde de súplica perante a morte. Ergo-o por sobre os braços, Ângela soergue-o pelos joelhos como num descimento da cruz. Estendemo-lo na cama desfeita, telefonar para onde?


Na tua face, Virgílio Ferreira

Tuesday, September 20, 2005

A morte

Vós já pensastes quantas vezes sonhais com mortos? já pensastes quantas vezes acordais aflitos porque um morto passava a noite convosco? Dizeis vós são pesadelos, coisas que vos pesam no miolo? É a vingança do morto sobre a vossa cobardia de medricas, a forma que tem mais à mão de vos chamar cagarolas. Porque é que não tendes cagaço de ver uma mosca morta ou um piolho ou mesmo um cão que já vos mexe no entanto um pouco com o sistema nervoso, que já está contaminado de humanidade? Porque vós sabeis que um piolho ou uma minhoca são mortais e sofreis na mioleira da pancada da imortalidade. Aprendei a ser mortais. Aprendei a morte como apredentes a estar à mesa, na retrete, desde o acto de amor ou desamor ao uso da toalha respectiva. O médico e o cangalheiro não têm medo da morte. Porque é que um cangalheiro há-de ser mais evoluído que vós?

Na tua face, Virgílio Ferreira

O belo e o feio

-Entra e senta-te.
E de súbito lembrei-me- pintar-te o retrato. Não como nos desenhos ternos que já fiz de ti e da tua irmã. Trago em mim o meu tmpo de horror. Da verdade da vida que é essa. Não a da chamada beleza, essa coisa linfática delicada pindérica. O feio o horrível, porquê horrível? porquê belo? Foi o homem que o criou e o homem está morto. Amochou pelo menos a crista alta, é o tempo de saber que o porco a minhoca o elefante o rinoceronte o hipopótamo, é tempo da trra inteira ser democrática. É tempo de saber que, ao tempo de existir, Deus não podia ter menos estética do que o homem que também já não existe para a ter.

Na tua face, Virgílio Ferreira

Saturday, September 17, 2005

Porquê?

- Porque é que há estrelas?
e houve aí a resposta que era a descida para o abismo. Ora porque é que há. Porque sim, existem como tudo, não há mais nada que saber. São astros como o sol, mas estão muito longe e parecem mais pequenas, também não perguntas porque é que há o sol e o mar e os animais. Mas tempos depois, porque é que, para que é que, perguntava menos e absorvia em si a fascinação da vertigem. Querido Luc, porque é que. Um dia hás-de ficar com a pergunta sem resposta na mão- vou deitá-la ao lixo? aguento-a até responder? vou pendurá-la ao pescoço como uma medalha de pechisbeque? Um dia chegarás até à última pergunta porque é que, e a Terra e o Universo devolver-ta-ão em eco porque é que. Mas por ora tenho aqui as algibeiras cheias de respostas para a tua inquietação. Porque é que os pássaros voam?


Na tua face, Virgilio Ferreira

Friday, September 16, 2005

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

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Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Paris, 13-5-1913

Friday, September 09, 2005

O Suicídio

(...)
E depois passava à questão prática da escolha do modo suicidário. Porque isto é naturalmente importante, dizia. Isto tem mesmo uma graduação cultural de dignidade, sexo e até de classe. Já imaginaram um militar ou um arcebispo suicidarem-se com pesticidas? Ou um campónio com barbitúricos? Ou uma mulher com uma espingarda caçadeira que lhe deixasse a cara em fascículos? Não sou tão exigente ou rigoroso que vos aconselhe um método de execução. Eles são mesmo inúmeros porque a necessidade humana é imensa. Mas dou-vos alguns para uma ementa mais variada. Eles são, aliás, os mais correntes, ou seja os já batidos na experiência. Escolhei. Mas sede prudentes e escolhei com ponderação. Os métodos que vos sugiro são:1- o tiro. É rápido e funcional e tem a vantagem de não precisar de preparativos. 2- por enforcamento. Também é rápido, mas tem o inconveniente de se ter de montar a corda, armar o laço, subir para um banco, empurrá-lo e ficar de língua de fora. 3- afogamento. Incómodo. Mais lento e com o desconforto da água. 4- o punhal.Só praticável para homens históricos e já um pouco fora de uso. E há a sangueira. 5- o veneno. É conforme. Os pesticidas proletários dão dores que se fartam. Os barbitúricos são mais suaves. Adormece-se e não vale a pena chamarem porque não se acorda. Mais próprios para as mulheres que tÊm sempre a esperança que de todo o modo as acordem. 6- debaixo do comboio ou do metro. Método também popular. Pouco cordial para quem tem de apanhar os destroços. Mas de decisão rápida. Está-se ao pé da linha e a decisão vem ou não vem. Se vem, é logo. 7- cortar as veias. é um método clássico e histórico para quando não havia o tiro nem o comboio. Muito digno. Mas muito sujo. O exemplo mais célebre é o de Petrónio que tapava e destapava a veia para ir entretendo o paleio com os amigos e ir morrendo por etapas. Pouco recomendável para os tempos modernos pela demora e falta de limpeza. São estes sete processos que vos proponho porque o 7 é um número esotérico e contém portanto uma verdade profunda.

Na tua face, Virgílio Ferreira

Wednesday, September 07, 2005

Na tua face

As paixões. Os deuses. A morte. Conheceis alguma coisa de mais ridículo do que alguém apaixonado? nada mais desastroso? nada mais inútil?
Porque teria alguém visto um cão apaixonado por uma cadela? ou um gato por uma gata? A paixão é só a sa espécie para ela se cumprir. A paixão do homem é a da insensatez de querer a irrealidade do que não existe, de viver o impossível como o das respostas para o seu infatigável questionar.
-Não vos prego contra o amor mas contra a paixão. E o amor cria-se no hábito de amar. Também vos não prego contra a existÊncia dos deuses, se isso vos perturba muito. Mas como conceber que eles tenham seja o que for a ver connosco, se há doenças e misérias e animais que matam outros para sobreviverem?
(...)
-Simplesmente eu pergunto para que serve essa hipótese? Simplesmente eu pergunto porque não suprimi-la para que o homem seja todo na sua libertação e nada lhe perturbe a sua serenidade? Porque não há terror nenhum no homem que não passe pela absurda e obstinada imaginação dos deuses. Concebeis que haja deuses inúteis e sem nenhuma significação? Já pensastes na quantidade de embaraços e humilhações e desvarios que vos destróem a vida só porque admitis que eles existem? Mas posto isto, pergunto, que é que pode significar a morte?
(...)
-Porque a morte é verdadeiramente o único problema do homem(...)A morte é o grande horror do homem e sabeis que há homens que se matam com o medo da morte?Imaginais alguém que parta a cabeça contra uma pedra por ter receio de se magoar nela? A morte é o pavor do fim da vida. Mas sabeis que depois dela o tempo acabou?que depois dela a vida de um jovem ou de um velho duram o mesmo tempo? Ninguém tem memória de antes de nascer e depois de morrer também não. Lamentarmo-nos para depois da vida é supormo-nos vivos para então.(...)Por isso o suicídio não é um estigma, mas o triunfo do homem sobre o destino.

Na tua face, Virgílio Ferreira

Thursday, September 01, 2005

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camõe