Tuesday, December 27, 2005

Para sempre

Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino.E uma comoção abrupta - sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros- é a História que se diz?abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas.(...) Abro a porta devagar, ela range para o espaço do jardim. É um jardim morto, as plantas secas, os canteiros arrasados nas pedras que os limitavam. Alguns têm só terra ou hastes secas de roseiras. Vejo-as do portão, o carro à entrada a trabalhar. Depois, meto-o na garagem, que é um barracão ao lado da casa. Um silêncio súbito, silêncio de terra.(...) Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há´algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores. Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro- o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte. Está certo. Parte-se carregado de coisas, elas vão-se perdendo pelo caminho. Se ao menos uma breve ideia. Não tenho. Não é bem a vida que faz falta- só aquilo que a faz viver.

Para Sempre, Vergílio Ferreira

Monday, December 19, 2005

Na morte de Sá- Carneiro



[1916]

[Na morte de Mário de Sá- Carneiro]



As palavras pertencem à Vida, ante a Morte não têm razão de ser. Devem ser feitos de silêncio os corredores por onde a Morte passe. É tudo claustral e secreto em torno à grande Alma que desencarnou.
O grande cerimonial da cessação da vida pede silêncio aos assistentes a saber dele.
Esse grande acto de magia que é a Morte.
É com um aparato (...) de silêncio que o espírito desencarna e o mundo físico cessa, como um túnel findo, aos sentidos astrais libertos e indivisos. A verdade começa quando se dobra a Morte, esse Cabo das Tormentas em que os astral liberto depois reconhece um Cabo da Boa Esperança.
A Morte, tão cheia de terrores para o comum incerto dos homens, não oferece ao oculista o mesmo velado gesto. «Mesmo nesta época houve quem visse Isis sem véu».
Estas palavras de um Hermético,(...)

A esta alma toda a vida ébria de aventuras sonhadas, sem dúvida que o sonho supremo, a irrealidade solene chamada Morte, atraíu como um abismo.
Escreveu nesse gesto a mais bela página da sua obra imortal. O Presente não o pode compreender. O Futuro amará a sua grande memória, velará com amor o seu aureolado nome.
Estas palavras não são escritas por mim, que as assino. Aos escrevê-las sou uma pura abstracção, medium inspirado de futuras gerações.
Encarno dolorosamente sensibilidades venturosas a quem o Destino concederá que assistam a um Portugal melhor.

Nada há a dizer onde só há que sentir.

Ele fez o que todo o artista devia fazer em Portugal. É preciso muita fé no futuro para poder sentir-se compatriota destes sub-homens, para poder saber-se português e não se matar ou morrer.
A maioria de nós morre lentamente, suicida-se pela vida, mata-se quotidianamente, saciado do nojo até de gozar o nojo de ter nascido em Portugal.
Tudo quanto é mau manda, tudo quanto e medíocre triunfa.
Esta pátria podre não tem por onde se ame. Só o conceito de uma pátria melhor pode dar a sombra de um alento a uma dolorosa alma contemporânea.
Sim, mesmo neste feudo abjecto de Inglaterra houve almas e recordações encarnadas de tempos em que a Europa chegou até aqui.
No fundo, para o português, há só uma tragédia- que é a de ser português.
Quaisquer que fossem, para ele próprio, as razões aparentes do seu suicídio, esta foi a razão primacial. O absurdo de ser uma alma de artista e ter nascido português é uma falha sem solução.

É(...) como um brazão num túmulo seu hic jacet:
Não foi entendido ou certo de Pátria quem foi uma das superiores figuras intelectuais de uma nação.



Fernando Pessoa

O Lord

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso.- em dúvida iludida...
(- Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência.)


Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas -
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...


(- Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)




Paris, Setembro de 1915


Mário de Sá-Carneiro

Sunday, December 04, 2005

poesias de hoje e de sempre

Não tenho mais palavras.
Gastei-as a negar-te...
(Só a negar-te eu pude combater
O terror de te ver
Em toda a parte).

Fosse qual fosse o chão da caminhada,
Era certa a meu lado
A divina presença impertinente
Do teu ventre calado
E paciente...

E lutei, como luta um solitário
Quando alguém lhe perturba a solidão
Fechado num ouriço de recusas,
Soltei a voz, arma que tu não usas,
Sempre silencioso na agressão.

Mas o tempo moeu na sua mó
O joio amargo do que te dizia...
Agora somos dois obstinados,
Mudos e malogrados,
Que apenas vão a par na teimosia.

(Desfecho, Miguel Torga)

Confiança

O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga