Monday, August 28, 2006

Até ao fim II

-Não me lembro. Devia dizer-lhe infância, menoridade mental. Coisas que só existem para quem não cresceu. Flora devia deitar tudo ao lixo sem ler. Era a sua obrigação. Porque vens agora com isso? Tão tarde. Resolve os teus problemas contigo. Mas tu nunca os resolveste
nunca resolvi. Nunca? E que é que isso quer dizer? Estás tu aí, cumprido até ao fim. E tudo quanto fosse de mim a ti, refluía a mim, que é o seu lugar. Entretanto venho ao extremo do largo, enquanto Miguel escreve. Deve escrever infância menoridade. E o excesso de tudo quando a vida começa. E a aflição que não sabe. Dás-me outra folha de papel? E o entendimento do incompreensível. E a melancolia de se estar só, quando ela ainda não é companhia bastante. E. Mas deixo-o escrever e as suas razões para isso, enquanto olho o mar. Escreve sempre, alucinado, sôfrego. Revejo-o na aceleração da memória, folhas e folhas, quanta coisa acumulada e a pressão insupurtável para se aliviar. Deve já transpirar de esforço, enrodilhado em si, a face quase colada ao papel, folhas enegrecidas umas sobre outras, escreve velozmente, os olhos injectados do esforço, escreve escreve e enquanto escreve olho o mar. Estou sentado no muro branco, olho as águas em baixo. É simples e profundo. Olho o mar. Toda a complicação da vida dispersa em só olhar. Que é que quer dizer a complicação complexidade? E as diversas maneira de se ser profundo. E a psicologia farófia destino do homem e não sei quê. Tão cansado, olhar o mar. Ser simples até à origem ao elementar. Tudo esquece tão cedo e se consome e é inútil no sótão de nós. Há uma leve neblina a toda a superfície, a respiração da noite.

Até ao Fim, Vergílio Ferreira

3 Comments:

Blogger Carmem L Vilanova said...

Amiga,
Voltei hoje a blogosfera, depois de quase 3 meses de desncanso.
E volto hoje com festa... Gostaria de poder contar com sua presença nesta data duplamente feliz para mim...
Beijos, flores e muitos sorrisos!

4:33 PM  
Blogger Fernando Palma said...

Gostei da leitura, diferente

"e é inútil no sótão de nós"

Show!

Beijo.

2:02 AM  
Blogger Danies said...

Excelente selecção de textos. A palavra é realmente o inicio de tudo: amor, ódio, tristeza, solidão, riso, encontro... da vida e da morte.
Parabéns.

12:31 PM  

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