Friday, September 22, 2006

D'" O Livro do Dessassossego"

A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade do dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade, que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo. Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre, ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do destino para si somente. Ai de ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior grandeza do homem, o que faz o hermitão humilde superior aos reis, e aos deuses mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o rei dos seua domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias para que a sua vida se fadou.
Por isso a morte enobrece, veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto, embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser disforme, mas é superior porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena liberdade, os meus momentos de exelcis.
Na cadeira, aonde me recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.


O Livro do Desassossego, Bernardo Soares

11 Comments:

Blogger Amaral said...

Quem tem em si todos os sonhos do mundo "terá" que ser MUITO, "terá" que querer ser TUDO e "terá" que SER TUDO!
Aparte isso, "O livro do desassossego" diz-nos muita coisa. Voltar a ser escravo não destrói a liberdade do amanhã. A vida flui com tal magia que a libertação está na consciência alcançada por cada um...

11:39 AM  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Linda!
Passei para deixar-te um beijo grande e desejar-te um lindo fim de semana!

5:00 PM  
Blogger indie girl said...

lol ia postar este trexo tb no meu blog..mas km ká está já não o faço..bjs e bom fds

12:17 PM  
Blogger Gaara said...

gostei mt do teu blog :p

12:20 PM  
Blogger louisgonzo15222819 said...

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4:13 PM  
Blogger Jinx said...

Somos livres?...................................................................................................................................................................................................................
Até que ponto escolhes a «liberdade»?............................................................................................................................
O que é o livre-arbítrio?...

4:24 PM  
Blogger mfc said...

Que paz que se consegue da dor...depois de ter doído!

7:29 PM  
Blogger mfc said...

Aguardo o próximo trecho.

9:56 PM  
Blogger Carla said...

Provavelmente não leste bem o texto Pedro, nele é explicado o tipo de liberdade a que o autor se refere...
Vê bem as condições em que nos tornamos livres, e verás que não é assim tão fácil.

10:54 AM  
Anonymous Anonymous said...

muito á frente...

4:10 PM  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Um beijo grande para ti...

7:20 PM  

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